

Laurinha
ou a Crueldade e o Amor
Ana Cristina
Gomes
aura
Ignez de Castro Tosto entrou na minha vida por completo acaso.
Eu voltava do cursinho onde estudava, na noite fria de 21 de outubro de 2001.
Não era para fazer tanto frio naquela época do ano, mas fazia. Quando virava
a esquina da rua onde moro, ouvi um gemido baixinho e parei para ouvir de onde
vinha. Percebi que vinha de perto dos meus pés, de uma boca de lobo aberta e
cheia de lama. Ao perceber que o gemido era um miado, coloquei a mão dentro
do buraco e então senti o toque de um focinho muito gelado, e peguei o
bichinho. Era branco, com manchas pretas, estava magro, com os olhos irritados,
cheio de pulgas e sujo de lama e quando olhei entre suas perninhas vi que se
tratava de uma menina.
Sem nem pensar em nada enrolei-a em meu agasalho e a levei para casa.
Ela estava faminta e eu não tinha leite. Como miava demais, minha mãe
colocou-a do lado de fora de casa. E não é que nossa outra menina, a Phoebe,
menina canina, tomou conta da nova amiga a noite toda?
De manhã ela estava lá dentro da casinha, toda quentinha, mas é claro,
morta de fome, o que logo foi resolvido.
Ela tinha a boca tão pequenina que o bico da mamadeira era grande demais, então
cortei o dedo mínimo de uma luva de borracha e o amarrei na ponta de uma
garrafinha plástica. Como ela mamou... Cuidei dela, dei remédio para
vermes, dei banho, acabei com as pulgas e em pouco tempo ela estava linda,
gorducha e brincalhona.
Eu não sabia a data certa de seu nascimento, mas pelas contas que fiz ela
deve ter nascido no começo de Outubro, então seu aniversário passou a ser
no dia de São Francisco, o padroeiro dos animais e da ecologia: 04 de
Outubro.
Companheira inseparável do Osíris, ou apenas Zizi, Laura fez dele sua mãe
adotiva e até mamava nele.
Quando ficou mocinha, ninguém conseguiu segurar seu ímpeto e ela engravidou
no primeiro cio. Foi mamãe de 5 bebês: Nanico (que tinha problemas e morreu
com um mês), Bonitinho (que morreu ao cair da laje), Mimo (que dei para uma
amiga e está lindo e gordo), Guinevere (que desapareceu após dar a luz três
meninos) e Maristella (uma negrona linda que também já foi mamãe e ainda
vive comigo).
Para evitar problemas, mandei o Dr. Rogério castrar a Laura e, rebelde como
sempre, ela nunca deixou que tirássemos o último ponto da cirurgia, que
permaneceu com ela para sempre.
O tempo passou, Zizi e Guinevere sumiram, Sean morreu de velhice, Maristella
foi mamãe e tudo corria bem, muito bem.
Exímia caçadora, Laura, ou Lalá, como eu a chamava, adorava correr atrás
dos passarinhos e quase sempre os pegava. Também adora brincar com suas
bolinhas feitas de sacolas de supermercado, que eu jogava e ela trazia de
volta, como um cachorro faz e com as bolinhas pequenininhas de plástico,
de uma pulseirinha da minha sobrinha que estourou.
Também era uma vovó típica, como as humanas e cuidava dos netos melhor do
que as mães.
Geniosa, só fazia o que queria. Gostava de dormir dentro da caixa de um par
de botas meu, e que ficava em cima de meu guarda-roupa. Ela disputou o lugar
com as botas até ganhar pelo cansaço.
Laurinha era minha melhor amiga, daquelas que ama sem exigir nada em troca, um
amor gratuito, desinteressado e bonito. Me adorava, e eu a adorava também.
Na noite de 16 de Fevereiro de 2004 ela pediu para sair. Queria caçar
baratas. Eu não queria deixá-la sair, mas, como já disse, ninguém
conseguia segurá-la. E ela saiu.
Acordei cedo como sempre, dessa vez para ir ao médico e ela não
estava. Fui ver na caixa em cima do guarda-roupa, mas ela não estava,
então achei que ela tinha chegado e saído de novo. Meu irmão, minhas
sobrinhas e minha mãe também saíram. Quando cheguei em casa, morrendo de
fome e cansaço, minha mãe falou: "Você não sabe o que
aconteceu..." eu perguntei o que era e ela disse: "Mataram a Laura.
Acho que foi envenenada." Então fui olhar na laje do vizinho de baixo,
porque não acreditava e a vi, esticadinha, como se estivesse dormindo. No
outro lado da laje havia outro gato morto. Muito bonito também, acho que era
da outra vizinha. Foi uma confusão de sentimentos e de forças em mim que não
raciocinava direito. A fome e o cansaço acabaram na hora. Uma meia-hora
depois, sem nada falar, vi que não podia deixar minha menina ali, no sol,
cheia de moscas em volta. Peguei uma picareta, uma enxada e uma pá, e cavei
um buraco bem fundo num cômodo em construção na minha casa. Pedi para o
filho da vizinha pular na laje e pegar a Lalá para mim. Pedi que a
colocasse na caixa da bota, aquela onde ela adorava dormir. Ela estava
bonitinha como sempre, não estava inchada como o outro gato, nem parece ter
sofrido muito. O veneno, provavelmente de rato, foi muito forte, fulminante e
levou minha Laurinha para a Ponte do Arco-Íris.
Em cima de sua sepultura plantei girassóis, que espero que floresçam logo,
para serem uma lembrança sempre viva da minha filhinha que tanto amo.
Sei que jogaram carne envenenada de propósito.
Até sei quem foi, mas não tenho provas para denunciá-lo. De uma coisa
apenas tenho certeza: esse sujeito vai pagar caro por isso. Se não aqui, num
lugar onde a justiça sempre é feita.
Ela deixou uma filha comigo, a Maristella
e cinco netinhos: Leônidas, Tito Lívio, Jeremias e Jezebel, filhos da
Maristella, e Yasser Agostinho, o Tim-Tim, filho da Guinevere, e ainda seu irmãozinho
Conan, que dei para minha amiga Aline, mas vejo sempre que quiser. Ah, e não
posso esquecer o Mimo, o netinho dela, que dei para a prima do meu
namorado e também vejo sempre.
Nunca vou esquecer de você, meu docinho,
e sei que você também não se esquecerá de mim. Um dia nos encontraremos de
novo.



